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GALO DA MADRUGADA HOMENAGEIA A FIGURA DO CABOCLO DE LANÇA NO CARNAVAL 2027

Com o tema “Ao Canto do Galo, a Espora é a Lança”, a agremiação celebra a força e a tradição de uma das figuras mais antigas e emblemáticas da cultura pernambucana.

Do coração do Recife para o meio de um canavial em plena Zona da Mata Norte de Pernambuco. O maior bloco do mundo, representado pelo seu símbolo maior– – o estandarte – percorreu cerca de 70 km para fazer um convite especial: foi “buscar” a figura mística do caboclo de lança, lá onde ele surgiu e ainda concentra por boa parte dos seus grupos, para ser homenageado pela maior festa de rua do planeta. Convite formalizado e aceito, os foliões já podem se preparar para o dia 06 de fevereiro de 2027, quando o Galo da Madrugada irá se unir a outro grande guerreiro da cultura do Estado e levar às ruas mais um desfile cheio de beleza e representatividade, sob o tema “Ao Canto do Galo, a Espora é a Lança”.

A poesia do tema une dois guardiões da cultura pernambucana: o anfitrião do Carnaval do Recife e o guerreiro da Zona da Mata Norte do Estado, conforme detalha o presidente da agremiação, Rômulo Meneses. “Assim como o Galo, há quase 50 anos, defende o frevo, o caboclo de lança também é uma figura protetora que mantém viva a tradição do maracatu rural há mais de um século. Este ano, vamos transformar a espora, defesa natural do Galo, na icônica lança de fitas coloridas do caboclo”, acrescenta.

O bloco, que completa, em janeiro do ano que vem, 49 anos de fundação, promete transformar as ruas do Centro do Recife em um imenso canavial de alegria, durante cerca de nove horas de festa, levando ao público estimado de mais de dois milhões e meio de pessoas a beleza e a energia da figura principal do maracatu rural (também chamado de Baque Solto). “É o reconhecimento do Galo à bravura dos cortadores de cana, agricultores e artesãos, que, há várias gerações, perpetuam essa figura tão representativa da nossa cultura. No dia 06 de fevereiro, nossa celebração maior será à preservação das nossas mais ricas e puras tradições”, acrescenta Meneses.

Símbolo de força e de mistério no maracatu rural, o caboclo de lança se transforma em um guardião da tradição através de uma indumentária repleta de significados e texturas. A imponência do guerreiro é marcada pela gola de miçangas  – pesada obra de arte têxtil rica em bordados coloridos e geométricos – e pelo surrão, armação com chocalhos de bronze nas costas. Há ainda a guiada, lança de madeira de dois metros adornada com fitas coloridas e, por fim, o rosto pintado, os óculos escuros e o marcante cravo na boca que transformam o trabalhador rural em uma figura misteriosa e poderosa, dando-lhe um ar sagrado e de profundo respeito durante a festa.

Reconhecido, em 2014, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o guerreiro blindado de miçangas e chocalhos surgiu entre o fim do Século XIX e início do Século XX, nos engenhos de cana-de-açúcar na Zona da Mata Norte pernambucana. Criado a partir da mistura de culturas indígenas e afro-brasileiras, o personagem nasceu como uma forma de expressão social. O primeiro grupo de que se há registro é o Maracatu Cambinda Brasileira, fundado em 1918, em Nazaré da Mata – em atividade até hoje. Estima-se que, existam, atualmente, pouco mais de 100 grupos no Estado, concentrados, sobretudo, na Zona da Mata Norte e em municípios da Região Metropolitana do Recife.

“Somos uma cultura nobre mantida por gente pobre. Alguns, aqui, ainda trabalham na palha da cana. Outros, felizmente, aprenderam outras profissões e melhoraram suas condições de vida. Todos guerreiros, que, muitas das vezes, não têm condições nem de fazerem suas ‘arrumações’ (indumentárias), mas que se sacrificam ao máximo por amor à tradição. Sermos lembrados pelo maior bloco do mundo é de uma honra e de uma alegria sem tamanho”, avalia o mestre Barachinha, líder do Maracatu Estrela Dourada, de Buenos Aires (Zona da Mata Norte de Pernambuco) e uma das principais referências atuais do maracatu rural.

O desfile do Galo da Madrugada, que tem início, pontualmente, às 9h do tradicional Sábado de Zé Pereira, irá manter o mesmo percurso dos anos anteriores: com concentração no Forte das Cinco Pontas, o bloco passa pela Rua Imperial, Praça Sérgio Loreto, Avenida Sul, Rua Saturnino de Brito, Rua do Muniz, Avenida Dantas Barreto, Praça da Independência, Avenida Guararapes e finaliza o trajeto de cerca de 6,5 km na Rua do Sol, com dispersão dos trios elétricos (30 no total, além de seis carros alegóricos) na Praça da República e Rua do Imperador.

Fundado em 23 de janeiro de 1978 e reconhecido (na década de 1990) pelo Guiness Book – o Livro dos Recordes, como o maior bloco de carnaval do mundo, o Clube das Máscaras O Galo da Madrugada reuniu, nos últimos anos, um público estimado de mais de dois milhões e meio de foliões nas ruas do Centro do Recife, marca que a agremiação pretende manter no dia 06 de fevereiro.

DESENVOLVIMENTO DO TEMA

Carnavalesco e diretor de Fantasias do Galo, Francisco Câmara frisa que, ao dar protagonismo ao caboclo de lança, a agremiação busca também homenagear o trabalho daqueles que figuram nos bastidores do carnaval – representados nos múltiplos processos que envolvem a confecção da indumentária do personagem. “Nossa proposta é também dar ênfase, no tema, a essas mãos pelas quais passam toda essa cultura, mesmo não sendo vistas: bordadeiros, costureiros, pessoas que fazem a franja, o chapéu de palha; todos eles constroem o carnaval”, pontua Câmara.

Para toda a criação visual em cima do tema – alegorias e fantasias -, Francisco dá um pequeno “spoiler”: “O que podemos adiantar, por ora, é que teremos um desfile do Galo da Madrugada multicolorido, grande marca do caboclo de lança, que, além de figura da cultura pernambucana, é também parte da identidade do nosso povo. Portanto, o público vai se identificar ao ver determinado cenário e fantasia no desfile”, promete o carnavalesco. Óculos, cravo, lenço, chita e muito brilho vão estar bem presentes, segundo Câmara, no espetáculo do dia 06 de fevereiro. “Toda essa construção ‘desarmoniosa’ e que acaba se ganhando harmonia e identificando a nossa cultura estará lá. O povo vai vibrar muito com essa homenagem”, conclui.

Em seu quarto ano consecutivo à frente da confecção das alegorias que abrem o desfile do Galo, o artista plástico Sandro Nóbrega também adianta algo no que diz respeito à estética que será levada às ruas na homenagem ao caboclo de lança: “nosso trabalho tem se baseado, principalmente, na riqueza de cores e nos elementos da sua indumentária. Teremos muitas fitas coloridas, muito brilho e, claro, cenários que remetem ao ambiente desses guerreiros, como os canaviais e os engenhos. De uma coisa o público pode ter certeza, vai ficar muito bonito”, garante Nóbrega.

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