“Não sei. Só sei que foi assim…”
Galo da Madrugada - Recife, PE
25 de julho de 2014
Fotos: Anderson Maia
“O dia 23 de julho de 2014 ficará marcado com a data em que o grande mestre Ariano Suassuna encerrou a mais bela e valorosa de suas aulas-espetáculo – sua vida – com oitenta e sete anos de duração.
Uma trajetória de simplicidades, autenticidade e posicionamentos fortes. Uma vida cheia de grandes obras de cunho literário, sobretudo enaltecendo a cultura e os valores nordestinos. Repleta de exemplos marcantes que servirão de referências para todos nós e para as futuras gerações.
Agradeço ao grande Ariano Suassuna por ter permitido, a mim e a todos os foliões do Galo, poder ter participado, no dia primeiro de março de 2014, de um dos temas de sua grande aula-espetáculo, no desfile do Galo da Madrugada do carnaval de 2014, para homenagear o mestre escritor, dramaturgo e poeta – Frevo no Auto do Reino de Ariano.”
(Rômulo Meneses- Presidente do Galo da Madrugada)
Presidente do Galo, Rômulo Meneses, e Ariano Suassuna, durante desfile do Clube, no carnaval deste ano.
Na última segunda-feira, 23, a cultura nordestina perdeu aquele que foi, certamente, um de seus maiores e mais atuantes defensores. Nascido na capital paraibana, em 1927, e tendo vivido a infância no sertão de Taperoá – no mesmo Estado -, Ariano Vilar Suassuna chegou às terras recifenses ainda aos 15 anos, em 1942. Nascia, então, um recifense legítimo, de coração. À capital pernambucana, o criador de João Grilo e Chicó, concedeu a honra de chamar de “melhor lugar para se viver”. E aqui viveu, até seus últimos dias de vida.
Aqui, formou-se em Direito, em 1950, profissão que não conseguiu levar adiante, em virtude de sua paixão pela arte e pela cultura. Este sentimento motivou Ariano a fundar, em 1970, o Movimento Armorial, voltado ao desenvolvimento e conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Uma de tantas e incontáveis contribuições que esse “parabucano” acrescentou à riqueza nordestina.
Autor de frases marcantes, ora polêmicas, e de ideias firmes, o escritor, dramaturgo e poeta retratava, numa mistura de originalidade e humor – sua principal marca – o valor da cultura local e a preocupação em que esta não fosse tragada pela onda de costumes estrangeiros. “Não troco o meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém” são algumas de suas citações clássicas.
A merecida homenagem do maior bloco de carnaval do mundo, O Galo da Madrugada, que resultou em um dos mais belos desfiles já realizados pelo clube de máscaras, teve surgida a sua ideia ainda em meados de 2013. “Resolvemos partir para essa temática por conta da grandeza da obra de Ariano Suassuna e da sua própria pessoa, seu estilo regional que faz questão de manter e sua inteligência digna dessa homenagem que não é a primeira nem, certamente, será a última”, afirmou, no início deste ano, o presidente Rômulo Meneses. Em coletiva de imprensa realizada pelo Galo em sua residência, em 23 de janeiro deste ano, o homenageado confessou: “fiquei muito honrado. Recife, para mim, é uma cidade muito querida e o Galo é, hoje, um monumento do Recife. Já sou do Galo e não abro.”
E, para alegria de mais de dois milhões de foliões, lá estava Ariano, naquela inesquecível manhã de 1º de março de 2014, presente no 37º desfile do maior bloco do mundo. Do Camarote Oficial, transformado em palácio para louvar a vida e obra do ilustre representante da cultura popular nordestina, o poeta recebeu, com toda alegria e vibração, a homenagem vinda daqueles por quem ele dedicou toda a sua trajetória – o povo.
Restam-nos, agora, as lembranças daquele memorável Sábado de Zé Pereira e daquele mestre humilde e sorridente, sentado em seu trono/poltrona, com seu medalhão dourado e, como não poderia ser diferente, seu indispensável figurino rubro-negro. Para você, eterno Ariano Suassuna, nossas infindáveis homenagens, saudades e agradecimentos por tão bem representar e valorizar o que é NOSSO.
Clube das Máscaras O Galo da Madrugada
